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Coloque em um mesmo ambiente três mulheres. Três diferentes idades, pensamentos, desejos. Acrescente uma garrafa de vinho e, em alguns segundos, terá diferentes histórias, desabafos, confissões. Em meio a tanta diversidade, uma coisa em comum: O sonho da cidadania italiana! Para cruzar fronteiras, para privilegiar suas futuras gerações, para fazer valer a imigração dos avós. Não importa. O sonho que as levou para o mesmo país e, por alguma razão, para a mesma casa. Estava criado o elo.
Ontem, confesso, que cheguei desiludida de tudo. Deitei na cama e quis desistir. Já não queria pensar mais em dinheiro, gastos, documentação e, muito menos, em tempo. Eu, a aquariana sonhadora e livre, cansou e pediu trégua.
“Que isso Amanda, nós abrimos um vinho, vem aqui, bora conversar, estamos todas precisando falar!”
Vinho…Toscana…Porque não. Larguei o email que estava respondendo e fui. Não precisou muito para virarmos ‘melhores amigas’. As diversas experiências contadas, traziam soluções e conforto para cada angústia individual. O quarto tornou-se o centro de risadas. O alívio que faltava. Meu corte interno cicatrizava por uma noite.
Ninguém é feito de ferro. E eu venho descobrindo que sou uma pessoa que não faz questão nenhuma de ter mais equilíbrio ou mais racionalidade. É muito fácil ser engolida pelas minhas frustrações e pensamentos de revoltas. Talvez por ser mais cômodo do que enfrentar ou, talvez, por me inspirar e me empurrar, não sei. Mas sei que é uma delícia quando se tem com quem desabafar, conversar e socar um ‘João Bobo’, para tirar de dentro todo sentimento ruim e travado. É uma delícia dividir espaço e confiança e, não apenas, seguir regras.
Eu precisava disso. Precisava de novas pessoas. Aliás, precisava de pessoas! A chegada das meninas na casa foi o que melhor aconteceu, até agora. Deu mais vida, novas energias circulando pelos ambientes. E Mais! Nova rotina!
Hoje completo dois meses de Itália. Dois meses. E eu que achava que o tempo só corria no Brasil, aqui então, ele nem descansa. Sessenta dias de mais aflições do que sorrisos; Mais choros do que alegrias; De muitas descobertas e orações. Sessenta dias de incertezas e inseguranças; de saudades e um milhão de pensamentos e planos. Nunca oscilei tanto em minha vida. Parece que tenho sofrido um processo de desintoxicação emocional. Sessenta dias querendo voltar para casa ou fugir para a Rússia. Um amigo meu fala que, não são as doenças que nos matam mas sim, as emoções. Bom, posso considerar-me uma sobrevivente, então. Disso, não tenho dúvidas.
Meu documento? Bom, junto com 60 dias de Itália, completo 44 dias de espera e, resolvi jogá-lo no vento. Voltei a cogitar a Rússia ou, quem sabe, a Croácia. Quem sabe até, me inscrever na ONU e ir trabalhar com refugiados. Não sei. Só sei que não quero mais sofrer por isso. Meu desgaste foi renovado. Não posso mais deixar nas mãos de um pedaço de papel, a solução da minha vida. Meu sonho vai muito além. Hoje, me permiti não pensar. Respirar será o máximo de esforço.

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