Do Céu ao Inferno

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Domingo. 01 de Novembro. Levanto cedo para ir até Firenze despedir-me da cidade. Despedir-me da Itália. Um até logo, para ser mais exata. Mudarei para Londres em busca de outras oportunidades. Mais uma fase. Agora, como Cidadã Italiana. Como Cidadã Europeia.

Mas o que deveria ser um dia de brilho e cores, acinzentou-se. Carreguei minhas duas malas, bolsa e mochila, de casa até o ponto de ônibus. Em Firenze, da estação até o Hostel. Quando sentei para respirar, a vida me agrediu. Uma ligação.

“Aman, o Lucas partiu…”

“O que? Como assim? O que houve?”

“Coração…Passou mal e não resistiu.”

Choque.

O tempo parou. O estômago travou. Os olhos embaçaram. Quatro amigas, cada uma em um canto do mundo, literalmente e essa notícia. Eu, sozinha. Sozinha mesmo, sem ninguém conhecido por perto para pedir colo, pedir socorro, me abraçar. Os intercâmbios via celular e internet começaram em seguida. Brasil com Itália, passando por Inglaterra. Escutávamos nossos choros, podia-se perceber as lágrimas escorrendo. A indignação de cada uma. O nó na garganta. A raiva. A tristeza.

Estamos longe, porém, perto. Tentando ajudar uma á outra. Os socorros emocionais vêm de todos os lados. Mas ainda, sozinha. Eu só queria um abraço. Andando pelas ruas de Firenze, sem direção, sentia-me um camundongo de laboratório. Já não raciocinava mais. O que precisava comprar, o que gostaria de comer, o que falta para viajar…Velório, enterro….Aaaahhhhhh… Do Céu ao Inferno em poucas horas. Eu queria gitar da Ponte, talvez, saltar. Para acalmar uma dor, apenas, sofrendo uma nova.

Foi na Igreja que encontrei alívio . Rezei por ele. Acendi vela e pedi por todos nós. Estava totalmente em desequilíbrio: entre uma alegria insana com minha viagem e uma tristeza brutal.

A perda de alguém é sempre um choque e uma porrada no estômago. Não importa a idade ou o quão preparados dizemos que estamos. Nunca é fácil, tão pouco aceitável. Na juventude então, quando temos o mundo todo para descobrir, uma vida inteira para ser desvendada, quando nos sentimos imortais…Como compreender isso? Como explicar para uma mãe? Falta ar.

Meu dia de despedida tornou-se, de fato, uma despedida. Meus passos foram se encontrando, algumas lembranças clarearam, veio o sorriso em meio as lágrimas. Não tive vergonha de chorar sozinha. Na rua. Na Igreja. Protegida pelos meus óculos escuros, chorei a perda, chorei não estar perto das minhas amigas, da minha família. Chorei a saudades que já existe.

Há pouco recebi a notícia do nascimento da filha de um conhecido. Para contrastar e trazer equilíbrio. O ciclo da vida. E restará sempre, o Amor.

Vai em Paz, amigo. Esse céu é para você.

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2 Comentários

  1. Bruna

    Logo você sabe que oceanos não mais existirão, e a tecnologia só tornou menos difícil uma dor espalhada. Que o sol continue brilhando por aí e logo logo estaremos juntas! Te amo, nega

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