Mês: novembro 2015 (Página 2 de 2)

Matei O Que Estava Me Matando

Sim, eu morri um pouco por dia.

A cada segundo de tensão, a cada mau humor, a cada grito interno e discussão provocada em família, pois precisava de atenção. Precisava de uma certeza: que a solução viria.

Morri sim, um pouco, todos os dias. De saudades, de frustração, de preguiça. Por conta de cada pensamento desesperado, por cada nervoso e só de imaginar o que seria no dia seguinte. Tudo de novo.

Não precisei me atirar de janelas ou pontes. Eu me matava no inconsciente, no interno. Renascia todos os dias feito uma Fenix. Renascia dos meus próprios sentimentos e torturas.

Todo dia, apesar do desequilíbrio, havia a sabedoria da escolha. Continuar e sempre. Não caia. Não desista. Nem que para isso seja necessário morrer um pouco por dia. Morre-se de amor então, porque não, também, de alegria. Em algum momento matarás de vez o que está hoje te matando.

Nos últimos dias de Itália senti-me como nos últimos dias de trabalho, no Brasil. Quando eu chorava durante o caminho. Chorava de estresse, de raiva, de vontade de ir embora. Feito uma criança que não quer ir para a escola, eu chorava dentro do carro e me fortalecia para encarar mais um dia. Até que decidi sair e mudar o rumo.

Assim foram as últimas duas semanas. Não pela Itália, que é um dos lugares mais belos e românticos que já estive. Mas por todo o peso que eu já estava acumulando e carregando sozinha; Por toda a ferida que não fechava, já estava desgastada, não aguentava mais as mesmas paredes e estradas. Eu precisava do conhecido. Um rosto, uma voz, um abraço que fosse…Aquela liberdade acorrentada aos meus pés, minha nova Pátria que me matava um pouco todos os dias.

Eu precisava seguir e ver pessoas.

Qualquer lugar que eu tivesse um abraço conhecido eu chamaria de Lar. Por a caso, ou não, foi a Terra da Rainha.

“Venha!”

Escutei.

Pousar em Londres foi um alívio. Depois de toda a saga, foi quando eu pude colocar o escudo no chão. Pronto. Respira. Você chegou.

“Estou em casa!”

E estou mesmo, de uma certa maneira. Aqui eu tenho o novo conhecido. Eu tenho o colo. Eu tenho voz.

A saudades do Brasil sempre existirá e, ela será meu impulso e o leão que matarei por dia. Mas acordar e estar onde eu tanto queria é a Benção dos Céus!

Estava morrendo de saudades de você. Da sua música. Do seu carinho.

Estava morrendo de vontade desse lugar!

Mundo Novo de Novo…London!

London

Partenza Per Londra- Finale

foto (3)

A chegada ao hotel foi, ao mesmo tempo, tensa e relaxante.

Precisei entrar em contato com minha família no Brasil, para ter certeza de que meu cartão de crédito estava liberado em todo Reino Unido, caso contrário, eu não teria como pagar a diária, já que não aceitavam mais a moeda Euro.

Fiquei tensa nesse momento. O cansaço só aumentava e, junto dele, o mau-humor e o nervoso. Eu só queria chegar. A recepcionista, muito atenciosa, vendo minha tensão, ofereceu-me um café e eu disse sim. Imaginei que ela me traria uma xícara, apenas para me acalmar. Mas não. Trouxe-me um copo enorme de café com leite, daqueles de cafeteria exemplar! Mais um anjo em meu caminho. Ali, foi o primeiro passo para tudo ser resolvido.

Cartão de crédito liberado, ufa! Tenho cama! Agora, vamos remarcar o voo. A comissária da British falou para fazer via site com o número da minha reserva então, vamos lá, não deve ser tão complicado. Assim pensei…Só que não. Após algumas tentativas em vão, meu nervoso aumentou e decidi desistir de tudo, mais uma vez. Isso costuma funcionar. Mesmo estando em um quarto delicioso, eu não conseguia curtir à altura. Oscilava as emoções e só conseguia pensar: ” Se eu não conseguir remarcar, se a neblina em Londres não baixar, como sairei daqui…”

“O máximo que acontecerá será você passar uns dias na Escócia…Nada mal!”

Foi o que mais escutei de pessoas queridas. É, nada mal. Naquele ponto, o que mais eu poderia fazer, senão, relaxar. Eu comentei que o quarto tinha uma banheira?!

Era mais de 1h da manhã quando decidi me desconectar do mundo e dormir. Tentar, pelo menos. Ainda havia muita coisa a ser esclarecida. Internamente, digo. Mas, como diz minha mãe: “Nada como um dia após o outro e uma bela madrugada no meio.” E amanhã, pelo menos, teremos um belo café!

E assim foi. Mas precisava tomar a decisão entre, ir para o aeroporto lutar por um voo e correr o risco de não decolar, devido ao tempo; ou ir direto para a estação de trem e garantir um meio de transporte. Afinal, trem “pousa” na neblina. Fui aconselhada por duas pessoas á ir até o aeroporto e arriscar. E fui guiada até a recepção, na hora certa, para encontrar o que, para mim, foi a razão de tudo isso. Já que nada é por a caso.

Uma senhora de Chicago, USA, que também estava n voo comigo e hospedou-se no hotel, estava indo para o aeroporto, pois tinha conseguido remarcar sua passagem.

“Voce quer ir comigo? Podemos dividir o taxi e acho que voce terá mais sorte em remarcar seu bilhete.” Ela falou.

Pensei: Porque não. Se ela cconseguiu, é porque tem voo e estão decolando. Pode ser um sinal.

“Sim, claro!”

Pegamos um daqueles taxis clássicos, pretos de aparência antiga. Senti-me na historia da Mary Poppins! Um dia frio, porém, lindo! Começamos a conversar. Ela perguntou onde eu ia sozinha com duas malas, o que iria fazer em Londres, o que fazia no Brasil e…

“Você trabalha com o que?”

“Sou atriz e produtora”

“É mesmo? Tenho uma amiga que trabalha com produção de TV em Londres! Vou apresentar vocês. Escreva-me um email! está vendo, não foi á toa que nosso voo foi desviado, nada acontece por á caso!”

Eu sorri. Sorri e pensei: sim! Nada é por a caso e tudo isso acaba de ser explicado! Nos despedimos no aeroporto com a certeza de que manteremos contato. E eu, mais ainda, com a gratidão de tê-la encontrado na recepção, na hora certa. Ela trouxe a solução e a confiança que me faltava naquele momento.

Remarcar meu voo foi mais fácil do que eu imaginava. Se a comissária no dia anterior tivesse passado essa segurança, muita coisa teria sido poupada. Mas tudo bem, nem todas as pessoas estão preparadas e eu, também aprendi que, manter a calma é uma sabedoria. Sempre haverá solução em vida.

Curtir Edinburgo ficará para uma próxima vez. Agora, eu tenho Londres para encontrar!

Finalmente! E mais uma etapa dessa nova vida! Desse meu novo mundo…De tudo novo de novo! Vivendo e aprendendo literalmente.

Partenza Per Londra- Prima Parte

 foto (1)

Nem se eu tivesse dado a luz á trigêmeos teria sido tão difícil quanto foi para chegar em Londres.

Depois de dias de frio e chuva, Firenze resolve abrir um Sol quente como se fosse Primavera-Verão. Bem no dia em que eu embarcava para Londres e, estava agasalhada até o pescoço, pois a Inglaterra estava embaixo de muita neblina e frio. Mas na bela Fiore fazia em torno de 22 graus e eu ainda precisaria carregar as malas, do hostel á estação de ônibus, sozinha, para ir ao aeroporto.

Chegada em Peretola- Aeroporto. Começam as contrações do parto. No check in, sou informada de que, devido ao fato de eu não ter garantido o check in online e estar com mala extra, poderia não embarcar naquele voo pois, ele já estava sobrecarregado. Além disso, havia o fato de Londres estar com o tempo bem fechado, dificultando os aéreos de pousarem. Ou seja, as chances de voar naquela segunda-feira ensolarada, eram mínimas.

Diversos voos sendo cancelados, aeroporto cheio, pessoas espalhadas por todos os cantos tentando resolver seus problemas. Mas a administração do aeroporto queria apenas uma coisa: Que os aviões decolassem e os gritos se calassem. E assim foi feito. Apesar de 1h de atraso, decolamos. O voo teria duração de 2h e 20 min. Mandei msg ao Felipe, que me buscaria e tutto posto!

Be’…Quasi tutto.

Quando chegamos á Londres o comandante avisou que precisaria esperar ordens para pousar, devido ao fog. Não enxergava-se nada. Sobrevoamos a cidade por meia-hora, mais ou menos. Meu coração na garganta. Tão perto e tão longe. De repente, a vista sumiu. O avião acelerou e os avisos iniciaram-se.

“Senhores passageiros, informamos que não conseguiremos pousar no aeroporto London City, devido a forte neblina. Estamos checando outros aeroportos.”

Tensão.

“Senhores passageiros, tentamos os outros 4 aeroportos de Londres e todos estão fechados. Falamos com as cidades de Manchester, Liverpool mas toda a Inglaterra está fechada, por conta da forte neblina…”

Hã? Oh no…

“…informamos que o único aeroporto disponível para pouso é o da cidade de Edinburgo, na Escócia. A rota será desviada. Lamentamos o ocorrido. Em mais 50 minutos de voo chegaremos ao destino.”

Che cosa?

Vozes. Risadas. Andanças pelo avião. A senhora italiana, que não entendia inglês, sentada ao meu lado, precisava de tradução o tempo todo. Havia uma garota menor de idade viajando sozinha. E agora? O que fazer? O que farão? Vão nos pagar hotel ou ficaremos esperando apenas algumas horas? Será que a Escócia ainda aceita euros? Mas porque tão longe?

Edinburgo! La informazione è sicura?? Mamma Mia!

E depois de voarmos por 3h, ou um pouco mais, desde a partida de Firenze, pousamos no aeroporto de Edinburgo, Escócia! No começo era só risada, vamos lá, pode ser divertido! Liga o celular para avisar os amigos e família e vá tutto bene! Assim deveria ter sido. Nos seguraram por 3 h dentro do avião, enquanto decidiam o que fariam. Não havia shuttle para nos pegar na pista e nos levar até o terminal. E quando você escuta gritos de “cala boca, abre essa porta”, você percebe que a paciência esgotou-se.

Fome. Cansaço. Frio. Tudo escuro. Descemos do avião quase 22h. A cia nos informou que conseguiu reservar um hotel, mas que precisaríamos pagar e eles reembolsariam depois, mediante uma reclamação no site. Não sabiam informar sobre quando poderíamos voar novamente. Não sabiam absolutamente nada! Cada passageiro tomou as rédeas de sua situação. Teve quem voltou de trem, pois não poderia arriscar perder um dia de trabalho.

Eu? Bom, com o estresse emocional bombando, eu só queria um banho quente, comida e cama. Ah! E que alguém carregasse minhas malas, pois eu não tinha mais forças. Mesmo discordando da política da cia aérea, aceitei a proposta do hotel. Eu só precisava descansar a mente e tentar curtir o imprevisto afinal de contas, não é todo dia que hospeda-se no Hilton de Edinburgo!

Aguarde o próximo capítulo…

foto (2)

Do Céu ao Inferno

Domingo. 01 de Novembro. Levanto cedo para ir até Firenze despedir-me da cidade. Despedir-me da Itália. Um até logo, para ser mais exata. Mudarei para Londres em busca de outras oportunidades. Mais uma fase. Agora, como Cidadã Italiana. Como Cidadã Europeia.

Mas o que deveria ser um dia de brilho e cores, acinzentou-se. Carreguei minhas duas malas, bolsa e mochila, de casa até o ponto de ônibus. Em Firenze, da estação até o Hostel. Quando sentei para respirar, a vida me agrediu. Uma ligação.

“Aman, o Lucas partiu…”

“O que? Como assim? O que houve?”

“Coração…Passou mal e não resistiu.”

Choque.

O tempo parou. O estômago travou. Os olhos embaçaram. Quatro amigas, cada uma em um canto do mundo, literalmente e essa notícia. Eu, sozinha. Sozinha mesmo, sem ninguém conhecido por perto para pedir colo, pedir socorro, me abraçar. Os intercâmbios via celular e internet começaram em seguida. Brasil com Itália, passando por Inglaterra. Escutávamos nossos choros, podia-se perceber as lágrimas escorrendo. A indignação de cada uma. O nó na garganta. A raiva. A tristeza.

Estamos longe, porém, perto. Tentando ajudar uma á outra. Os socorros emocionais vêm de todos os lados. Mas ainda, sozinha. Eu só queria um abraço. Andando pelas ruas de Firenze, sem direção, sentia-me um camundongo de laboratório. Já não raciocinava mais. O que precisava comprar, o que gostaria de comer, o que falta para viajar…Velório, enterro….Aaaahhhhhh… Do Céu ao Inferno em poucas horas. Eu queria gitar da Ponte, talvez, saltar. Para acalmar uma dor, apenas, sofrendo uma nova.

Foi na Igreja que encontrei alívio . Rezei por ele. Acendi vela e pedi por todos nós. Estava totalmente em desequilíbrio: entre uma alegria insana com minha viagem e uma tristeza brutal.

A perda de alguém é sempre um choque e uma porrada no estômago. Não importa a idade ou o quão preparados dizemos que estamos. Nunca é fácil, tão pouco aceitável. Na juventude então, quando temos o mundo todo para descobrir, uma vida inteira para ser desvendada, quando nos sentimos imortais…Como compreender isso? Como explicar para uma mãe? Falta ar.

Meu dia de despedida tornou-se, de fato, uma despedida. Meus passos foram se encontrando, algumas lembranças clarearam, veio o sorriso em meio as lágrimas. Não tive vergonha de chorar sozinha. Na rua. Na Igreja. Protegida pelos meus óculos escuros, chorei a perda, chorei não estar perto das minhas amigas, da minha família. Chorei a saudades que já existe.

Há pouco recebi a notícia do nascimento da filha de um conhecido. Para contrastar e trazer equilíbrio. O ciclo da vida. E restará sempre, o Amor.

Vai em Paz, amigo. Esse céu é para você.

 foto

Página 2 de 2

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén