Mês: dezembro 2015

Um caso de Amor e Ódio

Ela sabia que aquelas lágrimas eram muito mais do que solidão e saudades. O baú abriu novamente mas, dessa vez, apenas algumas peças caíram. As de renda. Brancas, pretas, bordadas a mão pelo coração. Eram o amor e sua ausência. A dor da falta de controle da sua própria vida. Ela pediu liberdade e teve demasiada. Chorou na missa feito criança. Desequilibrada. Fora dos trilhos. Mais uma vez.

O medo de viver a vida alheia. A perda do foco. Ela sabia que aquelas lágrimas representavam algo a mais mas, era indecifrável até então. Quando escreve escondida atrás da narradora, é porque não tem coragem de enfrentar o que está mesmo a vivenciar.

Ela reciclou todo aquele sentimento para fazê-lo de base. Está ausente com o mundo exterior. Precisa de ar e de olhar para suas conquistas. Valorizar os 4 meses que a amadureceram 5 anos.

Está vivendo um caso de amor e ódio com Londres. Seu maior prazer e tormento.

Ninguém falou que eu sobreviveria ao Natal ilesa. Nunca saímos imunes dessas situações, seja para o bem ou mal. Gostaria de ter mais controle sobre minhas emoções. Quando elas surgem parecem não pedir licença, simplesmente me arrombam e o vexame está posto. Chorar na missa, descompensadamente não é, assim, algo muito maduro. Mas é como dizem, às vezes, precisamos esvaziar a caixa d’água. Lave a alma, por favor, porque está pesado demais.

Londres, Londres…Se eu sobreviver a seu inverno e sua solidão, terei certeza de que serei capaz de sobreviver a tudo na vida. E olha que nem precisa ser ilesa. E não será. Já tenho marcas suficientes causadas por você nesses quase 60 dias.

Tão pouco e já estamos nesse ponto da relação. Veja bem, penso que pode ser mais amor do que ódio. Quando travamos uma guerra, contra algo ou alguém, é porque há sentimento. A indiferença é o que mata. Não causar nada, absolutamente nada, é muito triste. É o ponto da desistência.

Acho que ainda estamos bem. Só não sei até quando. Tenho esquecido o que tem valido a dor de alguns dias sob seu céu. Tenho esquecido o que tem pago o alto preço dos meus passos em suas calçadas.

“Que bom que estamos olhando para nossos problemas e não jogando-os para debaixo do tapete, amiga! Que bom que podemos enfrentá-los.”

Pois é. Mas eu adoraria poder jogá-los para debaixo do tapete. Não posso, não tem tapetes onde estou morando e a cama é vazada. Facilmente os problemas me encontrariam do outro lado. Que escolha eu tenho se não encará-los nos olhos e enfrentá-los. Suas caras nada bonitas e fantasiadas com todos os meus medos.

Sinto que estou me arremessando na fogueira mais uma vez. Ou melhor, precisando cruzar um bosque de espinhos inteiro fechado daqueles que não tem volta. Porque não tenho. Não importa o quanto eu chore hoje e desabafe, ao final da noite, a escolha será uma só. Continuar aqui. E amanhã cedo, a escolha será a mesma, porque eu quero assim.

Não opero na dor. Mas sou resistente a ela.

Seus roteiros a enlouquecem. Há planos para daqui 5 anos e nada para os próximos minutos. Só de pensar em perdê-lo, dentro do que escreveu, é um pesadelo. Mas de tanto acreditar, tudo torna-se muito real naquele olhar de menina. Ela sabe, no fundo, o que a tem tirado do espaço.

Estava linda em sua maior simplicidade. Mas seus olhos esverdeados nunca estiveram tão tristes. Ainda assim ela saiu. Precisava restabelecer sua relação e lidar com possíveis ausências e demoras. Em 4 meses, pela primeira vez, naquele segundo, ela se arrependeu.

Dançou a noite inteira, por mais de 1h, sem parar. Não piscava. Mal podia respirar. De braços em braços, estranhos dançarinos e voltas pelo salão. Latinos. Seu sangue, sua saudades. Até não sentir mais seus pés.

Sim! Eu me arrependo de todas essas escolhas tortas e mal organizadas. De não ter voltado e ter me atirado nesse precipício que não acaba.

Nem seu frio eu sinto mais. Mas voltar não é a solução e sim um remendo. Te dar as costas será como desistir de um amor. Eu já fiz isso antes e não farei novamente. Não importa o quanto você me pressione, eu a pressionarei de volta. Não importa a distância que me manterá de meus amores, eu me alimentarei dela.

Não importa a sua frieza. Eu compartilharei calor.

Então, com um cigarro em mãos- depois de tanto tempo- ela escutou seu coração.

Eu odeio o fato de te amar e querer desvendar-te. Eu odeio amar sua cultura, seus teatros e sua falta de charme.

 Não desistirei de você Londres, porque eu não desistirei de mim. Hoje eu sobrevivo a seu inverno, amanhã eu viverei as suas flores.

Pelo tempo que durar.

Voltou ao salão para rodopiar sua decisão. Sábia ou não, ela lhe deu mais uma chance. E, independentemente do que aconteça, ele sempre estará ali. Assim como ela e sua odiosa amada cidade.

Feliz- mais um dia normal- Natal!

Desde os meus 5 anos de idade eu divido meu Natal em dois. E sempre cumpri muito bem esse papel, desde então. A cada dezembro que se aproximava minha preocupação era uma só: “Com quem eu passarei esse ano”. Claro, havia a ansiedade para os panetones e presentes mas, eu era consciente demais da minha função naquele evento, para me distrair com o resto.

Isso é ser filha de um divórcio. Aprender a dividir tudo desde cedo. Assim como o Natal, todos os outros feriados e até aniversários. Mas esse tal de 25 de dezembro carrega uma religiosidade muito séria e, como descendente de família cristã, nunca foi algo simples de ignorar. Quando as comemorações aconteciam na casa dos avós, com primos e tios, ficava mais fácil. Mas sempre havia a ligação, no meio da madrugada, para aquele que ficou em outro canto. Nunca tinha os dois juntos.

Então vieram as famílias novas e agregadas. Esposa e namorado. Novas casas e outros bairros. As crenças eram as mesmas tudo muito tradicional. Mas nem sempre a distribuição da mesa agradava. Meu Natal tornava-se um roteiro a ser seguido. Tudo bem, contanto que eu estivesse sorrindo. Era só o que eles faziam questão. Da presença dos filhos- eu e meu irmão- e de nossos sorrisos. Eu enxergava mais além. Eu dava o que eles queriam sabendo que cumpria uma missão.

“Sorria. Seja educada. Diga as palavras mágicas! Não grite e mastigue de boca fechada!”

“Sim, pode deixar!”

Com tão pouca idade eu já era bem dirigida. Não poderia ter me tornado outra coisa na vida que não atriz e escritora. Merecia um Oscar por cada interpretação. E posso dizer que sim, eu era adorável!

Não havia sofrimento ou tristeza. Haviam observações. E era muito divertido perceber como eles-pais- precisavam tanto de nós- filhos- naquele momento. Como era importante nos deixarem felizes principalmente no Natal.

Por tudo isso passei a enxergar essa data como “apenas mais um dia” mas, carregava a obrigação em vê-los bem. E como nada está sob nosso controle, a cada pequena frustração, vinha a gastrite. Eu cresci. A escolha passou a estar cada vez mais em minhas mãos. A “simples” data voltava a pesar. Agradava a todos e esquecia de me agradar.

“Pequena menina. Natal é apenas uma data normal. Para muitos, não significa nada. Depois que você dormir, acordará e tudo estará igual. É apenas um dia. Não sofra!”

Há 10 anos, quando morava na Austrália, passei meu primeiro Natal sozinha. E, pela primeira vez, eu não precisei escolher nem um e nem outro; Pela primeira vez eu não precisei me preocupar com roteiros, sorrisos e vestido novo. Eu não tinha escolha, só havia um lugar para estar e era ali. Não havia outra pessoa para compartilhar além de mim mesma. Eu lembrei do conselho e do mantra de vida: É apenas uma data! Seja com chester ou batata frita, não faz diferença. A espiritualidade está dentro de cada um, essa é a sua Fé!

Que alívio! Que sensação! Acho que eu não tinha idéia do quanto era pesado todo esse evento “Natal em família.”

Não sofri. Sobrevivi. Sorri.

Dez anos depois e, alguns Natais pelo caminho, encontro-me novamente longe da família. Dessa vez na gelada Londres e, a mesma questão.

“Amêndoa não se preocupe, é só mais um dia normal. Essa é uma facção religiosa, não dê importância aos outros, foque em você. Fique bem.”

Um dia normal. Eu sei. De fato, um dia normal, como é para os muçulmanos, indianos, judeus, ateus…E para mim!

Não é tão fácil quando se foi educada dentro dessa facção religiosa, ainda que com todo o histórico de Natal que carrego. Em uma cidade cristã, onde as pessoas adoram o Natal, estar sozinha parece pecado. Mas decidi que esse ano seria all about me. Olhar pra mim. Me escutar. Comer o que eu quiser. A hora que eu quiser. Com a música que eu quiser e, claro, rezar.

Sem me preocupar com o almoço do dia 25 que sempre vira jantar. Sem estressar com as horas falhas da minha família “torta”- mas não com menos amor. Sem precisar escolher…Porque a escolha já está feita. E como não posso estar com quem eu gostaria e deveria então, truco! Dia normal. Dia de Paz.

“Filha e como será seu Natal? Você passará com alguém ou ficará sozinha?!”

Não se preocupem. Eu tenho um Chocotone Italiano na mesa e Londres inteira está aqui. Só fica sozinho quem quer.

Mas estou chateada porque esse ano não nevou.

Feliz mais um dia normal…

Feliz Natal…E muito Amor!

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Vivendo e Reescrevendo

À medida que os dias passam eu percebo que venho escrevendo roteiros em minha cabeça como forma de fazer a vida acontecer. Como se eu tivesse o controle do que virá. Acredito que seja uma maneira de confortar-me, brincar de saber o futuro; ou uma maneira de jogar no vento e fazer o Universo escutar o que eu desejo. Ou talvez seja apenas uma mente maluca de uma escritora solta em Londres em uma aventura.

Eu acredito neles com uma tal pureza que, quando eles não acontecem conforme manda a sequência, eu sinto que perco a base.

Como quando as pessoas não o seguem corretamente, por exemplo. Uma entrada errada ou um diálogo mal interpretado. Não deveria ser assim, você tem que seguir o que está escrito. Mas não. Fácil demais? Não! Quando parece que tudo está andando conforme o planejado, vem uma notícia qualquer e Bam! Obriga-me a mudar tudo o que estava pronto. Sair do conforto. Lidar com o inesperado que, de repente, torna-se realidade.

Reescrever tudo á partir daquele ponto.

Amargas surpresas.

Mas já dizia Virgínia Woolf: “Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial.”

Sim, Madame!

Então, é em meio ao prazer de escrever e reescrever que as novas cenas acontecem.

Ontem recebi um convite muito legal. Um amigo aqui de Londres, com quem começarei a trabalhar, convidou-me para a leitura de uma peça, de outro colega. Até então eu pensei que eu apenas assistiria e conheceria pessoas mas…

“Hey Amanda! Aqui está seu script, você fará a personagem número 7!”

“Everybody, this is Amanda!”

“What!?”

Como assim!

Eu mal cheguei e já sou arremessada contra essa fogueira de arte!

Já faz um tempo desde minha última leitura teatral…Em inglês então…Eba!!!

Um drama cheio de conflitos atuais e humanos. Que atire a primeira pedra quem nunca traiu ou sofreu com a perda de alguém. Perda para outro alguém. Perda para nós mesmos. Humanos. Apaixonados. Doentes. Errados. Conflitantes.

Lemos três vezes e, na última, eu já havia entendido perfeitamente meu papel ali. Porque somos todos iguais nesse mundo de emoção sentimental cheio de vícios e quereres.

Eu desviei meu próprio roteiro. Aquele encontro não estava escrito. E que delícia ter sido surpreendida. Que delícia ter enxergado cada conflito daquele drama, ter tirado a atriz do lugar. Os escritores costumam fazer isso.

Sem medo. Sem insegurança. Uma leveza que as Segundas-Feiras não costumam proporcionar. E uma sensação calorosa que nem o frio de Londres conseguiu estragar.

Kilburn

Eu costumo dizer que quem tem amigos tem tudo na vida. Muitas vezes, até mais do que família. Vinícius de Morais falou que “Amigo não se faz, reconhece.” Eu adoro acreditar nessa teoria! Assim como adoro acreditar que há Anjos em forma de pessoas que surgem para nos ajudar quando mais precisamos.

Eu tinha data para sair do apartamento onde eu estava, em Barking. Eu sempre soube disso e já tinha até para onde ir. Mas não estava segura com a decisão tomada, a energia não batia com o lugar e não estava a vontade. Mas eu precisava de um piso e, quando a necessidade aperta, a gente fecha os olhos e vai.

Até que um dia:

“Amêndoa, fala com uma amiga minha que mora aí em Londres, de repente ela pode te ajudar!”

Claro, por que não!? No mínimo fico conhecendo pessoas novas e isso é luxo quando estamos fora do nosso país de origem.

Fui encontrar a tal da amiga em um Café, onde haviam outros brasileiros reunidos fazendo um som Mineiro com sabor de casa.

Seja Bem-Vinda! Em 10 minutos de conversa compartilhávamos pensamentos semelhantes, crenças e arte. Mais 5 minutos e a solução veio em suas palavras:

“Estou indo para o Brasil de férias. Fica no meu apê por um mês!”

Como assim!?

Sim!

Um mês! Tudo o que eu precisava.

Como é possível alguém que nunca tinha me visto antes, nem sequer ouvido falar de mim, no primeiro ‘oi’ confiou em meu olhar e estendeu-me a mão, quando eu mais pedia internamente por uma nova solução. As pessoas que os Anjos colocam em nosso caminho e que, a única explicação para isso, é a espiritual. Gosto assim. Prefiro assim.

Kilburn. Norte de Londres. Mais perto do centro. Mais perto dos Beatles.

“Que minha casa possa trazer-lhe, nesse um mês, a Paz e a tranquilidade que você procura.”

Não tenha dúvidas. Meu silêncio reencontrado e minha individualidade de volta no lugar. Escrevo, ao som de Ravel, de frente para uma vista com prédios no estilo Victoriano como aqueles do filme do Peter Pan.

Não procuro explicação para esse sentimento de leveza. Deixo fluir ao longo das horas. Sinto-me cada vez mais Londrina incluindo todos os defeitos e a solidão desse céu cinza. Mas não gera tristeza. Gera compreensão. Satisfação.

Minha terceira casa em 4 meses. E não será a última. Meu terceiro bairro, minha terceira linha de metro, minha terceira experiência dentro do meu mundo novo. E novos passos, novos amigos, novos caminhos…Que sorte a minha!

Quem tem Amigos tem tudo mesmo. E quando estamos de bem, as coisas acontecem de coração!

Namastê!

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Acostumada do Prazer à Dor

Sozinha na multidão. É como sinto-me muitas vezes. Londres é magnífica em todas as suas qualidades e defeitos. Mas é dos lugares mais solitários que já morei. E não por você não ter companhia, mas porque a atmosfera traz isso. O inverno piora esse feeling, claro. Não é nada que te mate fisicamente, mas mata mentalmente. E se a sua cabeça não estiver no lugar, facilmente, você entra em sua concha e esquece de viver.

Não quero esquecer de viver, principalmente nesse lugar. Se eu sempre soube driblar a loucura de SP, como não saberei driblar a individualidade Londrina. Nada disso é um bicho de sete cabeças mas, dependendo a quantas anda sua mente, isso torna-se um grande obstáculo. Lidar com você mesmo. Ainda que rodeada de pessoas, festas, risadas…Ir para a cama sozinha e dar boa noite aos Espíritos pode fazer você adoecer.

O apartamento já não está mais silencioso. A turma do Brasil chegou. Da cama de casal ao colchão no corredor, é onde eu moro agora. Well, por alguns dias, até ocupar um novo apartamento. Salva por amigos!

A sala que testemunhou minhas risadas e conversas, por tantas madrugadas, agora tem malas, colchões e cobertas. Há novas vozes e gostos. Pensamentos e opiniões. E o que eu chamo de lar, eles chamam de mundo novo.

Há 4 meses fora do Brasil, praticamente sozinha, parece que eu tinha esquecido o que era essa “bagunça” boa. A ânsia por coisas novas, por conhecimento e tudo mais! E a diferença entre já ser uma viajante e um aprendiz. Entre vir e fazer tudo sozinha e, estar em família. Eles estão em família. Eu estou agregada mas, ainda sou eu apenas. Sozinha.

Ontem, antes de sair, comecei a preparar meu café da manhã, como todos os dias. Comi na cozinha mesmo, já que sentar no chão da sala não era mais possível. rs Alguns já estavam prontos mas, não estavam comendo e nem movimentando-se para isso. Então perguntei:

“Vocês não comem de manhã?” A resposta: “Comemos! Mas é que a gente espera pra comer todo mundo junto. Família mesmo!” Minha expresão mudou. Aí veio o complemento:

“É que você acostumou a comer sozinha nessa sua vida na Europa…”

Oh My God! I did!

Eu acostumei a comer sozinha não, eu acostumei a estar sozinha!!!

Eu não aprendi a estar/ser sozinha, eu acostumei, porque dentro da escolha que eu fiz, era o que tinha para o momento. E de repente, o que já estava organizado no lugar “acostumada”, entrou como uma porrada no estômago! Minutos depois, estavam todos na mesa, comendo juntos. Eu saí para meu compromisso pensando e falando alto, comigo mesma, sobre isso.

Não negarei que escorreram-me lágrimas pois, é isso o que acontece quando vivemos nossa própria vida. Entramos em nosso trilho e não percebemos como nos adaptamos a certas coisas. O que é até uma bobagem, pois no Brasil eu também tomava café sozinha, já que em casa temos todos horários diferentes. Mas quando eu enxerguei a situação como ela é, veio toda minha trajetória desses 4 meses que, mais parecem 5 anos.

Aquariana adaptável. Aventureira como o ascendente em Sagitário. Filha de Santos Guerreiros mas, que caiu do cavalo ao escutar uma frase tão simples e tão significativa.

“Cuida da cabeça. Não importa o que aconteça, esteja bem dentro de você. Pois senão, facilmente, a cidade te engole.” Disse uma amiga.

Sim, eu sei. Mas o mais difícil já aconteceu: acostumei a estar sozinha. Será que eu acostumo a estar em coletivo novamente? Será que essas emoções voltarão a fazer diferença? Em tão pouco tempo eu já estou adorando minha individualidade e achando normal…?

Não pode ser…

Na mesma tarde meu pai envia uma msg perguntando se estou bem. Perguntei: “Defina “estar bem”.

Ele respondeu: “Estar bem é estar vivo, andando, pensando, podendo criar e realizar dentro das nossas oportunidades…”

Bom, pensei, então estou parte bem, pois estou viva e andando. E vou falar que isso já é bastante dentro das minhas condições atuais. Algumas emoções já não fazem mais tanta diferença ou não são tão importantes agora. Triste? Fria? Realista? O que estou me tornando?

Ou: o que estou acostumando-me a ser. Seja o que for, que minha essência não morra jamais. E, se houver aqui dentro algum Amor, que ele salve-me diariamente de qualquer possível depressão.

Há um amigo que diz que não são as doenças que nos matam, mas sim as nossas emoções.

Mas o que não mata fortalece…

Incomodada com esse sentimento Natalino. Incomodada com meu crescimento. Incomodada com o que essa cidade cinza me causa. E acostumada a tudo isso.

Eu amo você Londres. E eu espero que me ame de volta.

As Luzes Foram Apagadas Mais Cedo

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Ela foi até a superfície pegar ar e em segundos mergulhou profundamente prendendo todo aquele ar, como se fosse o ultimo que lhe restasse. Mergulhou para as suas profundezas internas e contou todas suas trocas de pele nesses seus últimos 30 anos. Escutou todas as percepções caindo, pouco a pouco.

Ás vezes não sei mais onde estou. Esqueço do que fiz, do que falei se foi ontem ou se ainda será. Confundo com sonhos da madrugada e perco-me nos dias da semana. O Sol dura pouco demais, isso, quando ele vem. Essa semana fui sacodida como se estivesse em um brinquedo de parque de diversão. Vivi cada minuto sabendo o que seria do próximo, o que eu deveria fazer e quantos dias me restam nessa rotina.

Arrumar. Limpar. Planejar. Pegar metro, mala, outro teto, tudo de novo. Mudar. Tutto bene, nas nossas andanças passamos por isso mesmo, até termos nosso próprio casulo. Mas a sensação de ” caraca eu não tenho lugar”, ás vezes bate forte.

Essa semana eu fui muito pouco à superfície. Fui constantemente puxada para dentro de mim, obrigada a enxergar e a mexer em tudo que se espalhava pelos cantos. O baú estourou e todo aquele enxoval foi pelos ares. De novo não, por favor! Não tenho medo das lágrimas, mas sim da minha própria mente. Ela precisa ser melhor ocupada, porque vocês sabem, mente vazia casa do Diabo. E casa do Diabo meu bem, é fábrica de invenções.

Invenções de sentimentos, de novos monstros, para justificarmos uma nova batalha; Invenções de sonhos e pessoas. Invenções até de lugares e acontecimentos. Alimentamos tanto essa fábrica que ela torna-se real. Acreditamos de uma tal maneira, que torna-se quase que físico. Um turbilhão de sensações. E todas as expectativas em uma oportunidade. Para fazer valer os 30 anos nessa escolha do avesso aos olhos dos “comuns”. Para fazer valer o que chamam de “Oportunidade Única.”

Bullshit! Para fazer valer todo meu esforço, isso sim. Dormir e acordar sozinha, a 10 mil km do colo maternal, tem sido de fato, o maior crescimento. Cozinhar já é etapa vencida. Mesmo com toda tecnologia, não poder atravessar a rua, pegar um ônibus e ir beijar o fuço do seu cachorro, é que é um grande desafio. Sobreviva a isso no final do dia e verá, davvero, o quão forte és.

É lindo sair de casa. É uma delícia ter todo o poder em mãos. A liberdade do espaço, da escolha. É doloroso e recompensador sentar de frente para o espelho e saber que, o que se deseja naquele segundo não terás então, bola pra frente. Mas morar longe…Aí sim eu acredito no tamanho da minha coragem.

Uma vez, eu devia ter uns 11 anos, minha avó segurava um panettone daqueles bacanas, que vem dentro de lata importada. Na minha imaginação, aquele panettone era uma evolução dos de caixa então, comentei: ” Vó, vamos abrir! Meu sonho comer panettone que vem dentro dessas latas!” Ela, mineira e muito sábia: ” Minha neta, é só isso seu sonho? Que sonho pequeno! Sonhe mais alto!”

Poxa vó, imagina se eu tivesse me contentado só com aquele panettone…!

Eu sonhei mais alto. Eu estou no alto. Mas aqui em cima os tormentos também nos alcançam.

Com quase 31 anos o que estou fazendo comigo?

Que etapa é essa da minha vida que eu me coloquei. Sinto-me tão atrasada mas, em relação a quem e a que? E essa droga de prazo que todos colocam em nós- e nós mesmos- cada vez que nos perguntam: “Até quando?” Até quando o que? Não pode ser ‘Por esse momento e amanhã eu revejo?’

“Você ficará aí para sempre?”

Como eu posso saber! O Para sempre é muito tempo e longe…Não! Fábrica de Invenções!

“As coisas acontecem ao seu tempo”

Tempo. Eu espero que ele não desista de mim.

Essa noite ela foi do sorriso às lágrimas. Repetiu seus mantras 80 vezes. Assistiu sua série preferida em Italiano, para recordar. Adormeceu no sofá com a tv ligada e comeu carboidrato no jantar. Não era a única oportunidade do Universo, há de ter algo melhor guardado. Ela sabe disso. Também não imaginava o quanto ficaria chateada. Mas é que aquele “não” mexeu com muita coisa. A obrigou repensar suas escolhas.

Calou-se. Os amigos entenderam. A família entendeu.

Ela só queria sua cama. Seu urso de pelúcia, naquele momento, foi seu conforto de infância. As luzes foram apagadas mais cedo, essa noite. Assim como as cortinas foram fechadas sem esforço. Amanhã é um outro dia…E ele será todo seu.

Boa noite dia.

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