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À medida que os dias passam eu percebo que venho escrevendo roteiros em minha cabeça como forma de fazer a vida acontecer. Como se eu tivesse o controle do que virá. Acredito que seja uma maneira de confortar-me, brincar de saber o futuro; ou uma maneira de jogar no vento e fazer o Universo escutar o que eu desejo. Ou talvez seja apenas uma mente maluca de uma escritora solta em Londres em uma aventura.

Eu acredito neles com uma tal pureza que, quando eles não acontecem conforme manda a sequência, eu sinto que perco a base.

Como quando as pessoas não o seguem corretamente, por exemplo. Uma entrada errada ou um diálogo mal interpretado. Não deveria ser assim, você tem que seguir o que está escrito. Mas não. Fácil demais? Não! Quando parece que tudo está andando conforme o planejado, vem uma notícia qualquer e Bam! Obriga-me a mudar tudo o que estava pronto. Sair do conforto. Lidar com o inesperado que, de repente, torna-se realidade.

Reescrever tudo á partir daquele ponto.

Amargas surpresas.

Mas já dizia Virgínia Woolf: “Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial.”

Sim, Madame!

Então, é em meio ao prazer de escrever e reescrever que as novas cenas acontecem.

Ontem recebi um convite muito legal. Um amigo aqui de Londres, com quem começarei a trabalhar, convidou-me para a leitura de uma peça, de outro colega. Até então eu pensei que eu apenas assistiria e conheceria pessoas mas…

“Hey Amanda! Aqui está seu script, você fará a personagem número 7!”

“Everybody, this is Amanda!”

“What!?”

Como assim!

Eu mal cheguei e já sou arremessada contra essa fogueira de arte!

Já faz um tempo desde minha última leitura teatral…Em inglês então…Eba!!!

Um drama cheio de conflitos atuais e humanos. Que atire a primeira pedra quem nunca traiu ou sofreu com a perda de alguém. Perda para outro alguém. Perda para nós mesmos. Humanos. Apaixonados. Doentes. Errados. Conflitantes.

Lemos três vezes e, na última, eu já havia entendido perfeitamente meu papel ali. Porque somos todos iguais nesse mundo de emoção sentimental cheio de vícios e quereres.

Eu desviei meu próprio roteiro. Aquele encontro não estava escrito. E que delícia ter sido surpreendida. Que delícia ter enxergado cada conflito daquele drama, ter tirado a atriz do lugar. Os escritores costumam fazer isso.

Sem medo. Sem insegurança. Uma leveza que as Segundas-Feiras não costumam proporcionar. E uma sensação calorosa que nem o frio de Londres conseguiu estragar.

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