Feliz- mais um dia normal- Natal!

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Desde os meus 5 anos de idade eu divido meu Natal em dois. E sempre cumpri muito bem esse papel, desde então. A cada dezembro que se aproximava minha preocupação era uma só: “Com quem eu passarei esse ano”. Claro, havia a ansiedade para os panetones e presentes mas, eu era consciente demais da minha função naquele evento, para me distrair com o resto.

Isso é ser filha de um divórcio. Aprender a dividir tudo desde cedo. Assim como o Natal, todos os outros feriados e até aniversários. Mas esse tal de 25 de dezembro carrega uma religiosidade muito séria e, como descendente de família cristã, nunca foi algo simples de ignorar. Quando as comemorações aconteciam na casa dos avós, com primos e tios, ficava mais fácil. Mas sempre havia a ligação, no meio da madrugada, para aquele que ficou em outro canto. Nunca tinha os dois juntos.

Então vieram as famílias novas e agregadas. Esposa e namorado. Novas casas e outros bairros. As crenças eram as mesmas tudo muito tradicional. Mas nem sempre a distribuição da mesa agradava. Meu Natal tornava-se um roteiro a ser seguido. Tudo bem, contanto que eu estivesse sorrindo. Era só o que eles faziam questão. Da presença dos filhos- eu e meu irmão- e de nossos sorrisos. Eu enxergava mais além. Eu dava o que eles queriam sabendo que cumpria uma missão.

“Sorria. Seja educada. Diga as palavras mágicas! Não grite e mastigue de boca fechada!”

“Sim, pode deixar!”

Com tão pouca idade eu já era bem dirigida. Não poderia ter me tornado outra coisa na vida que não atriz e escritora. Merecia um Oscar por cada interpretação. E posso dizer que sim, eu era adorável!

Não havia sofrimento ou tristeza. Haviam observações. E era muito divertido perceber como eles-pais- precisavam tanto de nós- filhos- naquele momento. Como era importante nos deixarem felizes principalmente no Natal.

Por tudo isso passei a enxergar essa data como “apenas mais um dia” mas, carregava a obrigação em vê-los bem. E como nada está sob nosso controle, a cada pequena frustração, vinha a gastrite. Eu cresci. A escolha passou a estar cada vez mais em minhas mãos. A “simples” data voltava a pesar. Agradava a todos e esquecia de me agradar.

“Pequena menina. Natal é apenas uma data normal. Para muitos, não significa nada. Depois que você dormir, acordará e tudo estará igual. É apenas um dia. Não sofra!”

Há 10 anos, quando morava na Austrália, passei meu primeiro Natal sozinha. E, pela primeira vez, eu não precisei escolher nem um e nem outro; Pela primeira vez eu não precisei me preocupar com roteiros, sorrisos e vestido novo. Eu não tinha escolha, só havia um lugar para estar e era ali. Não havia outra pessoa para compartilhar além de mim mesma. Eu lembrei do conselho e do mantra de vida: É apenas uma data! Seja com chester ou batata frita, não faz diferença. A espiritualidade está dentro de cada um, essa é a sua Fé!

Que alívio! Que sensação! Acho que eu não tinha idéia do quanto era pesado todo esse evento “Natal em família.”

Não sofri. Sobrevivi. Sorri.

Dez anos depois e, alguns Natais pelo caminho, encontro-me novamente longe da família. Dessa vez na gelada Londres e, a mesma questão.

“Amêndoa não se preocupe, é só mais um dia normal. Essa é uma facção religiosa, não dê importância aos outros, foque em você. Fique bem.”

Um dia normal. Eu sei. De fato, um dia normal, como é para os muçulmanos, indianos, judeus, ateus…E para mim!

Não é tão fácil quando se foi educada dentro dessa facção religiosa, ainda que com todo o histórico de Natal que carrego. Em uma cidade cristã, onde as pessoas adoram o Natal, estar sozinha parece pecado. Mas decidi que esse ano seria all about me. Olhar pra mim. Me escutar. Comer o que eu quiser. A hora que eu quiser. Com a música que eu quiser e, claro, rezar.

Sem me preocupar com o almoço do dia 25 que sempre vira jantar. Sem estressar com as horas falhas da minha família “torta”- mas não com menos amor. Sem precisar escolher…Porque a escolha já está feita. E como não posso estar com quem eu gostaria e deveria então, truco! Dia normal. Dia de Paz.

“Filha e como será seu Natal? Você passará com alguém ou ficará sozinha?!”

Não se preocupem. Eu tenho um Chocotone Italiano na mesa e Londres inteira está aqui. Só fica sozinho quem quer.

Mas estou chateada porque esse ano não nevou.

Feliz mais um dia normal…

Feliz Natal…E muito Amor!

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4 Comentários

  1. Re

    Natal não é um dia normal. Independe de onde ou com quem você esteja. Natal é quando Cristo nasceu. E com Ele nasceu a esperança. Festa , comida , reunião, presente : tudo deveria estar em segundo plano. O mais importante é estar em paz. E agradecer à Deus pela vida. Por isso Natal não é um dia normal. Só por isso. O resto é complemento, que se não tiver , não faz falta.

    • Amanda

      É Natal para quem é Cristão, Rê!!! Um dia normal para quem segue outras crenças…Mas entendo seu ponto! Bjos de amor e saudades!

  2. Tia Rosimar

    Querida Sobrinha, tambem penso como voce. Natal eh apenas mais um dia em que
    voce vive na expectativa de agradar alguém, de ser uma boa hostess, de ter comprado os presentes certos e para todos! Hoje eu reconheço que Natal eh o dia de celebrar o nascimento de Jesus e meditar no que Ele quer de nós. Estou sozinha a 26 anos, e me sinto assim todos os dias. Eu e o mundo… O que vamos fazer eh surpresa…. Até pra mim!
    Corra atrás do seus sonhos, e não esqueça, sempre temos alguém sínodo lado.

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