Um caso de Amor e Ódio

0 Flares 0 Flares ×

Ela sabia que aquelas lágrimas eram muito mais do que solidão e saudades. O baú abriu novamente mas, dessa vez, apenas algumas peças caíram. As de renda. Brancas, pretas, bordadas a mão pelo coração. Eram o amor e sua ausência. A dor da falta de controle da sua própria vida. Ela pediu liberdade e teve demasiada. Chorou na missa feito criança. Desequilibrada. Fora dos trilhos. Mais uma vez.

O medo de viver a vida alheia. A perda do foco. Ela sabia que aquelas lágrimas representavam algo a mais mas, era indecifrável até então. Quando escreve escondida atrás da narradora, é porque não tem coragem de enfrentar o que está mesmo a vivenciar.

Ela reciclou todo aquele sentimento para fazê-lo de base. Está ausente com o mundo exterior. Precisa de ar e de olhar para suas conquistas. Valorizar os 4 meses que a amadureceram 5 anos.

Está vivendo um caso de amor e ódio com Londres. Seu maior prazer e tormento.

Ninguém falou que eu sobreviveria ao Natal ilesa. Nunca saímos imunes dessas situações, seja para o bem ou mal. Gostaria de ter mais controle sobre minhas emoções. Quando elas surgem parecem não pedir licença, simplesmente me arrombam e o vexame está posto. Chorar na missa, descompensadamente não é, assim, algo muito maduro. Mas é como dizem, às vezes, precisamos esvaziar a caixa d’água. Lave a alma, por favor, porque está pesado demais.

Londres, Londres…Se eu sobreviver a seu inverno e sua solidão, terei certeza de que serei capaz de sobreviver a tudo na vida. E olha que nem precisa ser ilesa. E não será. Já tenho marcas suficientes causadas por você nesses quase 60 dias.

Tão pouco e já estamos nesse ponto da relação. Veja bem, penso que pode ser mais amor do que ódio. Quando travamos uma guerra, contra algo ou alguém, é porque há sentimento. A indiferença é o que mata. Não causar nada, absolutamente nada, é muito triste. É o ponto da desistência.

Acho que ainda estamos bem. Só não sei até quando. Tenho esquecido o que tem valido a dor de alguns dias sob seu céu. Tenho esquecido o que tem pago o alto preço dos meus passos em suas calçadas.

“Que bom que estamos olhando para nossos problemas e não jogando-os para debaixo do tapete, amiga! Que bom que podemos enfrentá-los.”

Pois é. Mas eu adoraria poder jogá-los para debaixo do tapete. Não posso, não tem tapetes onde estou morando e a cama é vazada. Facilmente os problemas me encontrariam do outro lado. Que escolha eu tenho se não encará-los nos olhos e enfrentá-los. Suas caras nada bonitas e fantasiadas com todos os meus medos.

Sinto que estou me arremessando na fogueira mais uma vez. Ou melhor, precisando cruzar um bosque de espinhos inteiro fechado daqueles que não tem volta. Porque não tenho. Não importa o quanto eu chore hoje e desabafe, ao final da noite, a escolha será uma só. Continuar aqui. E amanhã cedo, a escolha será a mesma, porque eu quero assim.

Não opero na dor. Mas sou resistente a ela.

Seus roteiros a enlouquecem. Há planos para daqui 5 anos e nada para os próximos minutos. Só de pensar em perdê-lo, dentro do que escreveu, é um pesadelo. Mas de tanto acreditar, tudo torna-se muito real naquele olhar de menina. Ela sabe, no fundo, o que a tem tirado do espaço.

Estava linda em sua maior simplicidade. Mas seus olhos esverdeados nunca estiveram tão tristes. Ainda assim ela saiu. Precisava restabelecer sua relação e lidar com possíveis ausências e demoras. Em 4 meses, pela primeira vez, naquele segundo, ela se arrependeu.

Dançou a noite inteira, por mais de 1h, sem parar. Não piscava. Mal podia respirar. De braços em braços, estranhos dançarinos e voltas pelo salão. Latinos. Seu sangue, sua saudades. Até não sentir mais seus pés.

Sim! Eu me arrependo de todas essas escolhas tortas e mal organizadas. De não ter voltado e ter me atirado nesse precipício que não acaba.

Nem seu frio eu sinto mais. Mas voltar não é a solução e sim um remendo. Te dar as costas será como desistir de um amor. Eu já fiz isso antes e não farei novamente. Não importa o quanto você me pressione, eu a pressionarei de volta. Não importa a distância que me manterá de meus amores, eu me alimentarei dela.

Não importa a sua frieza. Eu compartilharei calor.

Então, com um cigarro em mãos- depois de tanto tempo- ela escutou seu coração.

Eu odeio o fato de te amar e querer desvendar-te. Eu odeio amar sua cultura, seus teatros e sua falta de charme.

 Não desistirei de você Londres, porque eu não desistirei de mim. Hoje eu sobrevivo a seu inverno, amanhã eu viverei as suas flores.

Pelo tempo que durar.

Voltou ao salão para rodopiar sua decisão. Sábia ou não, ela lhe deu mais uma chance. E, independentemente do que aconteça, ele sempre estará ali. Assim como ela e sua odiosa amada cidade.

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 0 Flares ×

Anteriores

Feliz- mais um dia normal- Natal!

Próximo

Feliz Tudo Novo de Novo…2016!

2 Comentários

  1. cibele

    Querida, não gosto de te ver sofrendo. Mas a poesia do seu texto ta incrível!!!!
    Parabéns!
    Saudade gigante.
    :*

    • Amanda

      Esse sofrimento que coloca pra fora tudo isso né….Uma droga saber me alimentar dele mas, melhor transformá-lo em arte! Saudades todos os dias…Obrigada amiga!!! <3 🙂

Deixe uma resposta

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén