Mês: fevereiro 2016

Paciência e Fé

E quando o tormento vem assim de repente…Mentira, de repente nunca, ele está sempre ali no canto apenas esperando o segundo melhor para explodir. Fazer você explodir. Silêncio. Muitas vozes, muito barulho. Não precisa ser assim, tão alto.

“Amanda, faça isso; Amanda, faça aquilo; E se você tentasse de outro jeito; Você já foi ver o que eu pedi?! Limpou as mesas?!”

A própria gata borralheira.

“Dont be like a kid, Be nice, be happy, go out, go to work, love, live, breathe, smile…”

AHHHHH enough!

Eis o mais novo muro na minha frente e o mais novo sinal desse coração cigano que vos escreve. Basta, por agora, basta. Não adianta bater e assoprar depois. Meu escudo está no chão. E eu estou cansada. Se eu não posso saltar do planeta então, entro em minha concha feito uma ostra.

Sinto muito, dessa vez só há espaço para um. Eu e todos os pensamentos que me acompanham. Haja espaço. No aperto nos batemos mas, é a única maneira de enfrentá-los. Penso demais e isso nem sempre é bom.

Não aguento mais olhar minhas mãos rachadas e sempre com alguma bolha nova ou queimadura-sim, eu me queimo o tempo inteiro no restaurante como uma criança estabanada.

“Passa creme, usa luva, elas melhoram.”

Elas sim, eu é que não.

Ah e esses ‘nãos’ continuam vindo. Chegando de fininho e pisoteando a esperança, o sentimento de algo melhor.

“Muito obrigada pelo seu interesse mas…Agradecemos sua disponibilidade mas…Não, não, não…!”

É só o que Londres tem me oferecido. Uma vida corrida. Dias sobrevividos. Falta de tempo. E ‘nãos’. ‘Não’ para tudo o que eu sonho. E sim apenas para o que é real: Sou imigrante em sua casa. Eu deveria saber. Madrasta.

A cidade do centro do Universo. Sua arte a solta e todo seu peso cinza enraizado mesmo em dias claros de Sol. Madrasta. As chances abertas, mas você não pára. Você empurra, sai arrastando, atropelando. Não olha nos olhos, não dá colo e ainda manda engolir as lágrimas. Nosso amor é seasonal, chego a conclusão. E não adianta gritar, eles jamais entenderão.

“Paciência e Fé.”

Oi??!

Paciência e Fé.

Escutei em um musical delicioso que fui assistir com um amigo querido.

Eu quis chorar. Eu chorei na verdade.

Paciência e Fé.

Com você e todas as suas escolhas. Com você e todas as suas novas mudanças e caminhos. Não tenha medo de remanejar tudo se assim for preciso. Eu, que penso tanto, nunca havia pensado desse jeito.

“Você é mineira minha filha, garimpa! Há muito o que ser visto e feito!”

Pais. Paz. Será!?

“Esse trabalho é temporário e ele está pagando pelo seu sonho!”

Está pagando pelo meu sonho. Temporariamente. E quando falamos em sonhos lembramos que eles não possuem preço. Todo esforço é válido diante do que desejamos. Não há limites para meus sonhos. Não há limites para mim.

O simples da vida parece muito difícil. E sobreviver tem sido um exercício árduo. Mas algo tem sido. Eu sei. Soa ingrato. Demorado. Injusto. Dolorido até. Mas tem sido. Os olhos andam inchados e a saudades quase violenta mas…Paciência e Fé.

Toda noite, quando deito, fecho os olhos na esperança de abri-los na cama em minha casa, com minhas cachorras deitadas aos meus pés. Eu sei que não acontecerá feito um passe de mágica mas, é gostosa a sensação. Conforta. E me faz dormir.

E após a madrugada virá mais um dia. E cada ‘não’ eu transformarei em um ‘sim’. E a cada cliente eu sorrirei e lembrarei: “paga o sonho!”

E pelo tempo que tiver que ser. Enquanto eu quiser ou até o príncipe surgir. Sem presa. O sapatinho será encontrado.

Paciência e Fé.

Tudo Novo De Novo

Parece que nada aconteceu. Como se eu simplesmente tivesse surgido aqui hoje, assim, do nada. O vazio vem ao meu encontro. As páginas foram viradas, talvez até arrancadas, queimadas. Já não lembro de certas datas mas, lembro de todos os choros. Não chegaram a deixar cicatriz mas, deixaram leves marcas para que eu nunca esqueça que um dia estive lá…No fundo e voltei. E ainda que eu olhe para trás noite a dentro, sei que sempre conseguirei voltar.

Três meses passaram feito o vento. Não despercebidos, eu senti cada hora desses 90 dias. Todos os risos e amarguras; todas as depressões e Fé. Mas passaram com tudo o que tinham direito. Atropelaram-me e colocaram-me de pé novamente. Esmagaram meus sonhos mostrando a realidade diária. Fizeram-me amar e odiar Londres de uma ponta a outra. Surpreenderam-me. E de tudo o mais difícil: mudaram o roteiro da história.

Reescrevo.

Três meses depois e aqui estou novamente. Abro a porta do apartamento, agora vazio. Escuto o silêncio. Algumas coisas estão fora do lugar. Eu estou. Estava. Não tenho certeza ainda. Esse copo, por exemplo, não era aqui. E a mesa também mudou. As plantinhas não resistiram ao frio da estação- e nem a lotação. Tudo bem, planto outras quando a cidade tiver cores e luz. Se essas paredes pudesse falar…Talvez eu me sentisse menos sozinha. Quantas coisas que só elas sabem.

Três meses. O mesmo coração. A mesma estação. Tinha escrito em minha tela como seria quando esse dia chegasse. Onde eu estaria trabalhando, como seria minha rotina, quantos sorrisos eu daria ao longo do dia. Mas, como tudo que se planeja na vida, muito aconteceu do avesso. Incrivelmente Londres traz a mesma sensação que SP. Alguns dizem que é o fato de ser cidade grande. Concordo. Mas eu digo, também, que é falta de amor. Ao menos no frio. As pedras não são muito amorosas mesmo.

Melhor abrir as janelas e acender um incenso. Não sei, ainda, se esse peso sou eu, a cidade ou esse chão. Seja o que for, dá porta para fora. À partir de hoje compartilho esse espaço comigo apenas…E meus monstros pessoais. Tudo bem, neles eu ainda posso confiar.

Tenho dúvidas quanto a essa vista. Que diferença faz, não posso mesmo abrir tanto as cortinas. Que bom! Há espaço no guarda-roupa para os casacos. Sim, esse colchão novo é mais alto. Que estranho…Eu não espero ninguém mais chegar.

Subi pelas escadas para fazer menos barulho. O elevador fala e denuncia. Entrei com o pé direito para dar sorte. Fiz todos os desejos-o mesmo desde sempre-que eu sobreviva ás minhas emoções. E então dei de cara com você. O espetáculo mais lindo da terra, mesmo entre pedras. Você, abençoando meu retorno e pedindo trégua. Agora somos nós, apenas nós, de novo.

Minhas roupas saíram de dentro da mala, pela primeira vez, em três meses. E, finalmente, terei um quarto para chamar de “meu”. Não é totalmente meu mas, será pelo tempo que tiver que ser. Eu e você. Não mais o sonho mas, a realidade. Que traga-me alegrias e clareza.

E seja como for…Que seja leve.

Tudo novo de novo…Mais uma vez!

Por Do Sol

Do cinza de Virgínia às cores de Garcia

Madrid2

“Eu sou um coração batendo no mundo.”

Assim falou Clarice Lispector. E assim ela me definiu e eu fui mais além. Por ser um coração batendo no mundo, como ela, quero poder palpitar em todos os cantos, fronteiras e oceanos. Coberta por diferentes idiomas, culturas, pessoas, cores, paladares e amores. A liberdade artística que desenha meus dias é a mesma liberdade que me assusta e me prende.

Sou refém de mim mesma e assim, totalmente sem controle e limites. Para que? Existe algo melhor do que acordar sem saber o que irá fazer?

“Mas quanto tempo durará, até onde você irá…”

Não sei e que bom! Eu só sei que quero leveza para viver. Leia e entenda: Viver e não sobreviver.

Há uns dias fui de Virgínia Woolf à Federico Garcia Lorca. Cruzei as fronteiras, sobrevoei o oceano, saí da ilha cinza e fui de encontro à paz espiritual que precisava. Mais do que descansar o corpo, descansei a alma. Reencontrei o Sol que não via há semanas; O céu azul e suas cores…Madrid tem cores! As árvores com folhas e as pessoas dizendo Holá! Sim, elas falam com você!

Madrid. Eu que sou tão Barcelona fui enamorar-me de você.

“Apaixone-se sem medo, pois Madrid permite isso!”

Escutei de um amigo. Já estava entregue. Apaixonei-me por cada passo que dei. Pela cidade plana e caminhadas incansáveis. Pelos seus monumentos e praças. Pelo seu futebol e sua culinária. Pelo seu flamenco e sua música. Apaixonei-me pela possibilidade de poder estar ali a hora que eu bem entender. Esse tal passaporte europeu é mesmo muito interessante deu mais asas à minha liberdade.

Ah! O doce sabor de poder estar onde quiser…Que perigo!

No segundo dia tive a certeza de que não voltaria à Londres. Mandaria buscar minhas malas ou simplesmente deixaria tudo para trás. Minhas loucuras precipitadas. Mas faço tudo em nome do meu prazer. Pago o preço que for pelo meu bem estar, para viver em um lugar que não me machuque. Para encontrar meu lugar no mundo. E o valor é alto.

Mas afinal, pergunto-me, qual é o nosso canto no mundo? Como saber? E porque essa gana de ir atrás desse “tal canto no mundo”? Até que ponto vale fazer as malas e simplesmente “vazar”.

Coloco meu coração na forca diariamente em busca dessa resposta pois, esse sentimento, é o que faz-me sair por aí feito uma cigana. Eu não me importo, já que pertenço ao mundo. E de tanto sentir-me tão parte dele, sinto que consigo viver-ou sobreviver-onde quer que eu pouse. Isso pode ser muito bom mas, ao mesmo tempo, não. Depende do humor com que acorda.

Ás vezes penso que não pertenço a lugar nenhum de tanto pertencer a todos. Cansei de forçar a barra com Londres e tentar fazê-la ser o meu lugar. Já sei que não é, já entendi isso. Eu moro aqui, mas não é minha “casa”. Ainda, talvez. E Madrid mostrou-me isso. Com seus olhos desembaçados e de ternura fez-me enxergar onde eu não alcançava mais.

Amei em seus braços calientes e dos espanhóis. Estes cumprimentam, não esbarram e olham nos olhos. Fui pega no colo e recarreguei o coração. Revi amigos queridos e escutei que não estou sozinha. Se eu digo que sinto saudades eles entendem, pois também sentem. O dia abriu-se para os meus 31 anos começarem com o pé direito e cheio de novas possibilidades.

“De Madrid ao Céu!” Como dizem os madrilenhos.

Sim! Seus ares aqueceram-me e tudo voltou a ficar claro. O preço alto- de toda dor, dúvida, medo, saudades, amor- Continua valendo á pena pagar.

Sou do mundo. Sou de Londres, de Madrid, de Brisbane…De todos os lugares. De onde eu quiser ser!

Leve. Agora eu já sei. Mas essa história fica para outro dia.

Muchas Gracias Madrid!

Você foi o melhor presente que eu poderia ter recebido nesse aniversário!

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