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Meu Eterno “Cara” do Labirinto

David Bowie

Lembro-me de assistir ao filme Labirinto repetidas vezes ao longo da minha infância. Não sei exatamente por qual razão mas, ele me impressionava. O tal “Cara mal do Labirinto” despertava em mim um medo e um encantamento. Eu não conseguia desligar a televisão. Preferia lidar com aquela sensação até o final. E mesmo sabendo o final, a sensação acontecia.

Eu tinha por ele-personagem- uma espécie de encanto platônico. Eu era apenas uma criança e ele o belo mago com quem eu entraria naquele labirinto. Eu sabia que ele era mais do que aquilo. Suas músicas tocavam no som do meu pai. Mas eu não conseguia entender como um cantor podia, também, estar em um filme. Cabeça de menina, aquela idéia não era certa. Hoje, como alguém que faz e ama arte, entendo que em nossos leques artísticos podemos colocar o que quisermos

E o Bowie fez isso com delicadeza e perfeição.

Confesso que não conheço todas as suas músicas e muito menos cresci em sua geração. Mas ele era o exemplo de artista admirável. Ousado e autêntico, revolucionou com sua música e seu olhar. Parecia não ter medo de suas próprias mudanças.

Bowie foi artista de verdade e não apenas alguém “famoso”. Imagino que tenha sido uma pessoa bacana também.

Que pena. Que pena que o mundo ficou pequeno demais para você. É inacreditável e triste ver como temos perdido os ‘grandes’. Seja no teatro, no cinema, na música.
Porque o tempo não pára pra ninguém. Recebi essa notícia logo pela manhã, ao chegar no trabalho. Disse-me minha mãedrasta:

“Você viverá de perto as homenagens para ele aí em Londres. Não que seja algo feliz mas, é uma experiência…”

Sim. Uma experiência que não terei como evitar, assim como todas as outras que tenho vivido aqui. Londres traz isso em seus muros e calçadas. Cada bairro há um nome, um sorriso ou uma lágrima. E hoje, há flores aos seus pés no muro em Brixton. E haverá as saudades no coração de cada um.

A cidade está mais fria e pálida. Os jornais da manhã rapidamente foram susbstituídos e, agora, final de tarde, você ocupa todas as capas. Londres perdeu um filho. E a sensação é de que o resto de nós, perdeu um irmão.

É. Acho que fui tocada.

Daqui direto para as estrelas…David Star!
Meu eterno “Cara” do Labirinto.

“There’s such a fooled heart Beatin’ so fast
In search of new dreams.
A love that will last
Within your heart.
I’ll place the moon
Within your heart.”

(As The World Falls Down- David Bowie)

Mural Brixton Bowie

Do Céu ao Inferno

Domingo. 01 de Novembro. Levanto cedo para ir até Firenze despedir-me da cidade. Despedir-me da Itália. Um até logo, para ser mais exata. Mudarei para Londres em busca de outras oportunidades. Mais uma fase. Agora, como Cidadã Italiana. Como Cidadã Europeia.

Mas o que deveria ser um dia de brilho e cores, acinzentou-se. Carreguei minhas duas malas, bolsa e mochila, de casa até o ponto de ônibus. Em Firenze, da estação até o Hostel. Quando sentei para respirar, a vida me agrediu. Uma ligação.

“Aman, o Lucas partiu…”

“O que? Como assim? O que houve?”

“Coração…Passou mal e não resistiu.”

Choque.

O tempo parou. O estômago travou. Os olhos embaçaram. Quatro amigas, cada uma em um canto do mundo, literalmente e essa notícia. Eu, sozinha. Sozinha mesmo, sem ninguém conhecido por perto para pedir colo, pedir socorro, me abraçar. Os intercâmbios via celular e internet começaram em seguida. Brasil com Itália, passando por Inglaterra. Escutávamos nossos choros, podia-se perceber as lágrimas escorrendo. A indignação de cada uma. O nó na garganta. A raiva. A tristeza.

Estamos longe, porém, perto. Tentando ajudar uma á outra. Os socorros emocionais vêm de todos os lados. Mas ainda, sozinha. Eu só queria um abraço. Andando pelas ruas de Firenze, sem direção, sentia-me um camundongo de laboratório. Já não raciocinava mais. O que precisava comprar, o que gostaria de comer, o que falta para viajar…Velório, enterro….Aaaahhhhhh… Do Céu ao Inferno em poucas horas. Eu queria gitar da Ponte, talvez, saltar. Para acalmar uma dor, apenas, sofrendo uma nova.

Foi na Igreja que encontrei alívio . Rezei por ele. Acendi vela e pedi por todos nós. Estava totalmente em desequilíbrio: entre uma alegria insana com minha viagem e uma tristeza brutal.

A perda de alguém é sempre um choque e uma porrada no estômago. Não importa a idade ou o quão preparados dizemos que estamos. Nunca é fácil, tão pouco aceitável. Na juventude então, quando temos o mundo todo para descobrir, uma vida inteira para ser desvendada, quando nos sentimos imortais…Como compreender isso? Como explicar para uma mãe? Falta ar.

Meu dia de despedida tornou-se, de fato, uma despedida. Meus passos foram se encontrando, algumas lembranças clarearam, veio o sorriso em meio as lágrimas. Não tive vergonha de chorar sozinha. Na rua. Na Igreja. Protegida pelos meus óculos escuros, chorei a perda, chorei não estar perto das minhas amigas, da minha família. Chorei a saudades que já existe.

Há pouco recebi a notícia do nascimento da filha de um conhecido. Para contrastar e trazer equilíbrio. O ciclo da vida. E restará sempre, o Amor.

Vai em Paz, amigo. Esse céu é para você.

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Contra o Tempo…Só o Amor

O Brasil entrou no horário de verão e eu pareço ter entrado em órbita. O tempo aqui não anda, ele voa. Não estamos apenas 4h na frente, estamos dias. Eu acordo e, em um piscar de olhos, já estou na cama novamente. O relógio não perdoa. A paisagem também não. As dores, continuam as mesmas.

Perdemos o Horus nesse domingo. Acordamos com seus miados de dor, corremos ao veterinário mas, não houve tempo. O tempo, mais uma vez. Este, que me tortura há dias. Este, que é incontrolável. A famosa corrida contra o tempo. Tempo é dinheiro. Tudo isso é uma verdade, estamos lutando com ele e contra ele todos os dias, ou, o ‘tempo’ inteiro.

Tempo. Quanto tempo tem uma dor. Uma saudades. Uma lágrima. Uma alegria. A nossa felicidade. Como se mede o tempo, como calculá-lo e saber que estamos à sua frente ou que ele está a nosso favor. Há uma música do Musical Rent, chamada ‘Seasons of Love’- Que podemos traduzir como ‘Tempos de Amor’ ou “Temporada de Amor”. A letra é bastante interessante, pois fala em medir a nossa vida em amor, nosso tempo. Meça em amor.

Amor. Gostaria de poder tocá-lo e usá-lo como uma arma visível contra todo esse Tempo desgastante e todas essas dores que parecem infinitas. Ás vezes, sentí-lo apenas, não basta. A força acaba. O escudo cai. O corpo arria. O tempo vence. Mas o tic-tac reinicia já no segundo seguinte, porque ele não para. E há de se levantar e encará-lo frente a frente, gritar se preciso for e tê-lo como aliado.

Não, não é fácil, porque ele pode te desestruturar, fazer seu mundo “cair” e, quando você perceber, ele terá passado mais ainda. Não se renda. Não caia nunca. Nem perante a dor mais cortante. O tempo é uma luta diária, mas pode ser uma solução amiga. E se começar a te enlouquecer, em algum momento, cale-o. Nem que para isso você precise desligar todos os relógios. Acompanhe apenas pela mudança do Sol. Essa calma pode ser a melhor arma contra ele. Shhhh, não fale alto. Se você não se render, ele se rende.

56 dias de Itália. 40 dias lutando contra o tempo. Agora mais do que nunca. Um dia pode mudar, literalmente, minha vida. Um dia. Uma escolha. Mas ele há de se render, porque eu estou armada de amor.

Descanse em Paz nessa bela paisagem, Horus! Agora, nos braços de São Francisco de Assis.

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