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Do cinza de Virgínia às cores de Garcia

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“Eu sou um coração batendo no mundo.”

Assim falou Clarice Lispector. E assim ela me definiu e eu fui mais além. Por ser um coração batendo no mundo, como ela, quero poder palpitar em todos os cantos, fronteiras e oceanos. Coberta por diferentes idiomas, culturas, pessoas, cores, paladares e amores. A liberdade artística que desenha meus dias é a mesma liberdade que me assusta e me prende.

Sou refém de mim mesma e assim, totalmente sem controle e limites. Para que? Existe algo melhor do que acordar sem saber o que irá fazer?

“Mas quanto tempo durará, até onde você irá…”

Não sei e que bom! Eu só sei que quero leveza para viver. Leia e entenda: Viver e não sobreviver.

Há uns dias fui de Virgínia Woolf à Federico Garcia Lorca. Cruzei as fronteiras, sobrevoei o oceano, saí da ilha cinza e fui de encontro à paz espiritual que precisava. Mais do que descansar o corpo, descansei a alma. Reencontrei o Sol que não via há semanas; O céu azul e suas cores…Madrid tem cores! As árvores com folhas e as pessoas dizendo Holá! Sim, elas falam com você!

Madrid. Eu que sou tão Barcelona fui enamorar-me de você.

“Apaixone-se sem medo, pois Madrid permite isso!”

Escutei de um amigo. Já estava entregue. Apaixonei-me por cada passo que dei. Pela cidade plana e caminhadas incansáveis. Pelos seus monumentos e praças. Pelo seu futebol e sua culinária. Pelo seu flamenco e sua música. Apaixonei-me pela possibilidade de poder estar ali a hora que eu bem entender. Esse tal passaporte europeu é mesmo muito interessante deu mais asas à minha liberdade.

Ah! O doce sabor de poder estar onde quiser…Que perigo!

No segundo dia tive a certeza de que não voltaria à Londres. Mandaria buscar minhas malas ou simplesmente deixaria tudo para trás. Minhas loucuras precipitadas. Mas faço tudo em nome do meu prazer. Pago o preço que for pelo meu bem estar, para viver em um lugar que não me machuque. Para encontrar meu lugar no mundo. E o valor é alto.

Mas afinal, pergunto-me, qual é o nosso canto no mundo? Como saber? E porque essa gana de ir atrás desse “tal canto no mundo”? Até que ponto vale fazer as malas e simplesmente “vazar”.

Coloco meu coração na forca diariamente em busca dessa resposta pois, esse sentimento, é o que faz-me sair por aí feito uma cigana. Eu não me importo, já que pertenço ao mundo. E de tanto sentir-me tão parte dele, sinto que consigo viver-ou sobreviver-onde quer que eu pouse. Isso pode ser muito bom mas, ao mesmo tempo, não. Depende do humor com que acorda.

Ás vezes penso que não pertenço a lugar nenhum de tanto pertencer a todos. Cansei de forçar a barra com Londres e tentar fazê-la ser o meu lugar. Já sei que não é, já entendi isso. Eu moro aqui, mas não é minha “casa”. Ainda, talvez. E Madrid mostrou-me isso. Com seus olhos desembaçados e de ternura fez-me enxergar onde eu não alcançava mais.

Amei em seus braços calientes e dos espanhóis. Estes cumprimentam, não esbarram e olham nos olhos. Fui pega no colo e recarreguei o coração. Revi amigos queridos e escutei que não estou sozinha. Se eu digo que sinto saudades eles entendem, pois também sentem. O dia abriu-se para os meus 31 anos começarem com o pé direito e cheio de novas possibilidades.

“De Madrid ao Céu!” Como dizem os madrilenhos.

Sim! Seus ares aqueceram-me e tudo voltou a ficar claro. O preço alto- de toda dor, dúvida, medo, saudades, amor- Continua valendo á pena pagar.

Sou do mundo. Sou de Londres, de Madrid, de Brisbane…De todos os lugares. De onde eu quiser ser!

Leve. Agora eu já sei. Mas essa história fica para outro dia.

Muchas Gracias Madrid!

Você foi o melhor presente que eu poderia ter recebido nesse aniversário!

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Para Onde Queremos Ir

“E para onde você quer ir, darling?”

“Não sei para onde, Amêndoa…Pra onde tenha um espaço profissional pra mim. E encontre respeito e dignidade para exercer minha profissão.”

É, talvez seja apenas isso que procuramos. Um espaço profissional digno e, também, um lugar para morar onde possamos ser tratados como cidadãos. Um lugar que valha nossas lágrimas de saudades e esforços por novas oportunidades. Quem sabe, o lugar, onde viveremos aventuras de amor e criaremos um filho. Saímos de casa cheios de cansaço de decepções e excitados pelo o que podemos encontrar em um novo pedaço de terra.

Nos aventuramos, sozinhos ou acompanhados, estrada a fora. O futuro cego. O famoso voo no escuro. Não nos importamos em sermos nômades ou em carregarmos nossa vida dentro de uma mala, como Nitsch fazia. Afinal, tudo o que nos é necessário deve caber em uma mala, apenas e, dentro de nós. A arte do desapego. E da coragem. Sim, porque na hora de partir, somos 80% vontade e coração, o resto, vamos pegando pelo caminho.

Vale tudo em nome dessa realização de ser e estar melhor. Da legalização de um visto à vida clandestina, somos sonhadores em busca de um lugar ao Sol. Ou à sombra. É uma busca incansável. Como retirantes, mudamos de um canto ao outro, se preciso. Nos adaptamos, nos encaixamos, nos permitimos. Tudo pode mudar e, muda, a cada segundo. A paisagem, o idioma, os pensamentos, as ideias mas, há uma pergunta que pode importunar por muito tempo: O que estou fazendo de fato? O que estou fazendo por mim? O que eu quero? Não os outros, eu!

Tenho me perguntado muito isso, desde que cheguei aqui. A cada dia que passa, sem trabalho, sem notícias da documentação da minha cidadania, eu me pergunto: Por que? Até quando? A culpa é do Brasil, que me expulsou, por conta da situação atual ou minha, que sou levada por um espírito aventureiro e desafiador? Será que devo chamar de culpa? Pergunto-me também se estava preparada para tantas questões e invasões internas. Meus monstros a solta, vozes ao pé do ouvido…SILÊNCIO! Preciso ME escutar!

Cheguei ao ponto da escolha novamente. Talvez mudar. Ficar aqui mais um pouco. Não dá. Não sei. Preciso de tempo, mas o tempo não espera, ele passa, hoje já é domingo e 41 dias de Itália. Há quem diga que eu seja forte e corajosa. Mas atualmente, sinto-me como uma boneca de porcelana. Eu não encontrei meu lugar, ainda. Isso pode levar tempo. Mas eu sei exatamente o que eu quero, hoje. E isso é muita coisa.

Encarar sozinha tem sido muita coisa.

Com um copo de vinho na mão- sim, copo, aqui em casa não há taça- deixo-me levar por todos os meus medo e gritos. Que bom que sempre há ouvidos para me acalmarem. E uma boa música. A enxurrada de sábado veio desaguar no domingo. Dormi demais. Pensei demais. Bebi demais. Melhor assim. Melhor respirar essa chuva em minha janela e me refazer para amanhã. E, quem sabe, com boas notícias!

Namastê!

 

 

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